Nota contra o CONEXÃO REPORTER - SBT - Reportagem irresponsável faz caricatura da situação das escolas brasileiras
*Eduardo Nunes
Existem horas que tenho certa vergonha do tipo de jornalismo feito em nosso país. “A violência na escola” foi tema do programa jornalístico “Conexão Repórter” e como educador me senti afrontado pela abordagem tendenciosa, falso moralista e sobre tudo injusta, feita pelo jornalista que comanda o mesmo. O programa foi exibido por volta das 23hs desta quarta-feira 18 de maio do ano corrente.
Ao exibir de forma sensacionalista a imagem de estudantes portando armas e consumindo drogas nas dependências das escolas, o repórter praticamente acusa uma das diretoras entrevistadas, como se estivesse nas mãos dela e de todos os coordenadores pedagógicos, a resolução deste, sim grave, problema. A pretensa matéria jornalística tratava o tema de forma isolada, como se este se encerrasse dentro dos muros da escola e não viesse de fora dela. A culpa é da escola?
Talvez um de nossos problemas talvez seja a busca por culpados e não por causas. Qual é a causa deste problema? Nas considerações finais o jornalista diz, entre outras coisas, “As escolas pedem socorro!”. Sim, realmente pedem. Os hospitais também. E os trabalhadores e trabalhadoras. A sociedade como um todo pede socorro. Facilmente alguém diria “a culpa é do estado”. E embora tenha alguma razão, para mim, a causa está no nosso modelo de sociedade, idealmente excludente, limitadora e fadada a um colapso cada vez mais próximo de uma explosão irreversível.
Tratar a violência na escola sem tratar da violência doméstica, ideológica, institucional, sexual e tantas outras violências, é não resolver o problema. É na escola que todas essas violências se somam, mas mais do que isso, é na escola que elas se legitimam. Mas a causa não está na escola.
A escola, disse-me certa professora hoje pela manha, “é o espelho da sociedade”. Porquanto uma mudança da escola deveria vir de uma mudança na sociedade, mas quem muda a sociedade? A escola? Sim a questão é dialética, mas cabe a escola resolver a questão? A causa está na escola? Não, insisto em dizer. Todas essas racionalizações acabam caindo no senso comum de que é na escola que todos os problemas sociais são sanados, e de que é problema dela resolver. Mas não é.
Os espaços educativos, principalmente na periferia, mais parecem presídios. Durante o processo de ensino do primeiro ano ao nono, se acompanharmos uma única turma neste período de tempo, perceberemos quão poucos chegam a essa ultima série do ensino fundamental e menos ainda chegam ao ensino médio, e aqueles que o concluem são considerados heróis. Qual é, mais uma vez, a causa disso? A repetição da pergunta é proposital e nos chama a reflexão.
Qual é a perspectiva de vida que um estudante, de bairro periférico, tem hoje com relação à escola? Alguém me responde, seguindo uma velha cartilha: “Ser alguém na vida, conseguir um bom emprego e mudar de vida”. Outros mais pessimistas dizem: “Nenhuma, no máximo ser chefe de trafico, herdado de algum parente. Estão tudo é perdido!”. Essas duas frases, aparentemente dispares, são faces da mesma moeda. A dá exclusão social. A primeira ignora completamente a realidade destes grupos sociais que são o tempo todo bombardeados pelo conceito de que seus direitos são inexistentes na prática. A segunda trata de forma banal a vida destes jovens, rotulando-os ao mesmo tempo em que deixa nítido o que a sociedade realmente espera deles. Sim, porque o modelo de sociedade em que vivemos necessita das duas coisas: grandes Exércitos de Reserva feitos de homens honestos, mas desqualificado profissionalmente, garantindo assim baixos salários justamente pela mão de obra excedente; e outra grande fatia, aceitando o lugar que lhes é imposto de marginalidade, buscando alternativas de vida fora da lei burguesa, que por excelência lhe exclui.
Antes da escola temos a sociedade que a sustenta e legitima como reprodutora de seu modo de existir. Mais do que isso a escola legitima a forma de existir socialmente de uma classe dominante e isso se afirma a partir da idéia de um currículo nacional, somada a idéia de uma avaliação nacional. O que vai definindo essas relações muitas vezes são as relações de mercado; o tipo de conhecimento que será necessário ter, para que se atinja melhor colocação na sociedade; que valores devem ser perpetuados socialmente. Há ainda, outro perigo nessa questão que é a ilusão a respeito da “igualdade de condições de ascensão social”. Pessoas de origens sociais diferentes, com condições de ensino/aprendizagem diferentes, têm as mesmas chances de crescimento na sociedade justamente por que o currículo escolar é um só. Isso, a meu ver é um artifício de dominação e só poderia de alguma forma fazer sentido se a meritocracia burguesa fizesse algum sentido real.
Apesar dos claros esforços de diversos educadores, as implicações das relações existentes entre Capital Cultural, Capital Social, e o Capital Simbólico são colocadas para baixo do tapete, justamente porque sua exposição e relevância no ambiente de ensino levariam a uma mudança de paradigma. Embora de forma velada, estes capitais estão presentes na escola, principalmente porque a mesma também da continuidade uma forma particular de relação com estes valores. Uma das soluções mágicas colocadas é a mudança no currículo, no projeto pedagógico ou no modelo de gestão da escola. Nesse sentido, acredito de fato, que a idéia de um currículo minimo não satisfaz as necessidades de uma educação libertadora.
Cobras-se que os alunos tenham um estilo elegante de falar, de escrever e até mesmo de se portar; que se mostrem sensíveis às obras da cultura legítima, que sejam intelectualmente curiosos, interessados e disciplinados; que saibam cumprir adequadamente as regras da “boa educação”. Essas exigências só podem ser plenamente atendidas por quem foi previamente (na família) socializado nesses mesmos valores. (Nogueira, 2004)
Se por um lado a escola pública é restringida pela soma de diversos fatores que vão da falta de estrutura, recursos humanos e financeiros passando pelos problemas da existência de um currículo mínimo, que não dialoga com a diversidade presente na instituição, por outro há um fortalecimento do ensino privado que se pauta, curiosamente, na manutenção dos mesmos valores. A diferença, entre ambos, é o local social dos indivíduos que constituem este ambiente de ensino. Ainda assim, não podemos entender este ensino particular, como exemplo a ser seguido, tal qual nossa televisão insiste em propagandear, colocando repedidas reportagens sobre escolas particulares ou públicas como apoio da iniciativa privada que “dão certo”. Sucesso aparente tão somente acontece pela eficiência no relacionamento com um sistema social que o privilegia. Embora sejam personagens com diferentes funções no teatro social, os educandos de escola pública e privada são igualmente prisioneiros de um sistema que beira a crueldade. A manutenção deste sistema depende da diferenciação social institucionalizada, ou seja, o Estado tem papel fundante nessa legitimação.
(...) segundo Bourdieu, cada grupo social, em função das condições objetivas que caracterizam sua posição na estrutura social, constituiria um sistema específico de disposições e de predisposições para a ação que seria incorporado pelos indivíduos na forma do habitus. (Nogueira, 2004)
Se não há uma regulação desses dispositivos sociais, igualando condições nos diversos níveis do Capital estas diferenças tendem a se agravar. Mas, como já disse anteriormente, igualdade de condições financeiras, de obtenção de títulos escolares, de acesso a cultura, a saúde e tudo que o Estado deveria prover a todos, embora seja um importante primeiro passo, não resolve a questão. Longe disso na verdade.
Bourdieu defende que, quanto maior o acesso a obtenção de determinado título escolar mais seu status social se desvaloriza. É o que ele chama de “Inflação dos Títulos Escolares”. Então, para manter o distanciamento social aqueles que detêm o poder social, criam maiores degraus para dificultar a equiparação. Somam-se a isso, as dificuldades de aplicação do título escolar no mercado. Como vemos, se os valores sustentados socialmente não forem modificados, nenhuma espécie de bolsa, cota, reforma dos prédios escolares, inclusão do ensino de arte de modo a sensibilizar os “alunos violentos”; nada disso será de fato, suficiente. Pois resta redefinir quais os valores sociais, culturais, econômicos e simbólicos que esta sociedade, através de seu sistema educacional, vai defender.
Como pode ser missão do professor, mesmo que bem remunerado e motivado resolver um problema como esse? Criou-se o mito de que os problemas na escola serão resolvidos com professores bem pagos, motivados para a batalha diária. A questão não é remunerativa, muito embora seja plenamente necessário que os professores sejam bem pagos, mas qualquer cidadão tem esse direito. Ou mudamos nossa sociedade nas suas bases ou nada passará de reformismo, que apenas apazigua momentaneamente as tensões sociais. Um estado que trabalha em função da manutenção do amplo direito de poucos em detrimento da exclusão de muitos, só pode gerar miséria, crime e revolta. E ele, “secretamente” destes subprodutos.
É claro que existem pessoas ricas que cometem crimes, estes são a grande maioria dos ricos inclusive, porque para serem ricos cometem crimes. O nome disto é corrupção e nosso modelo de estado também precisa desta engrenagem. Falo aqui, separadamente, da pessoa que, não vendo perspectiva de vida, perdendo a fé de que com suor e trabalho árduo se pode vencer e encontra em atividades, fora da lei, uma forma de sobrevivência de sua família. Este cidadão a margem da sociedade, formado pelos mesmos valores sociais que a elite e buscando se equiparar em status adquire capital e patrimônio equivalente aos dos “legítimos” ricos. Deste modo a elite, através do Estado, justifica as entradas violentas nas comunidades pelas forças policiais, como instrumentos de controle social, exemplificando para todos quais seria o salário da revolta. A própria revolta é criminalizada neste processo e a miséria justifica a aceitação da esmola, tão necessária ao escrúpulo moral da elite que pode dormir em paz, porque “fez a sua parte”.
Ao falar sobre um diretor escolar que não quis dar entrevista ao programa o repórter não só exibe a imagem do mesmo sem a autorização, como também insinua que tem o referido culpa nos graves problemas da escola. Proposital e levianamente ainda divulga o nome da escola e em câmera lenta mostra a imagem do diretor apontando em sua atitude de não ser entrevistado, uma ação de não enfrentamento do problema e até conivência. O que pode fazer um diretor além do que já faz? E com certeza faz, nós professores que damos aula na periferia sabemos, muito é tentado e feito. Se não fosse feito a situação seria muito pior, inclusive. Não é criminalizando o estudante ou a escola que essas questões serão resolvidas. O debate sobre formação profissional do professor tem de mudar. O debate sobre constituição social deve mudar assim como a forma de gestão pública do Estado. O próprio debate sobre drogas e violência tem de ganhar um viés mais construtivo. A droga consumida neste país que mais mata é o álcool e ela é legalizada. É preciso que a sociedade assuma a escola como um lugar de reconstrução de si mesma, que as famílias reassumam o compromisso para com a vida escolar de seus filhos e que nossos meios de comunicação sejam mais responsáveis, visto que são de fato formadores de opinião, que de certa forma educam e contribuem através da espetácularização da violência, para a geração de mais e mais violência, não só física, mas principalmente, institucional e ideológica.
Referência
, Henry A. e MacLaren, Peter. Formação do Professor como uma contra-esfera pública: a pedagogia radical como uma forma de política cultural. Artigo in Currículo, Cultura e Sociedade. Antônio Flávio Moreira e Tomaz Tadeu da Silva (orgs); tradução de Maria Aparecida Baptista – 8° ed – São Paulo, Cortez, 2005
Nogueira, M ª Alice. Bourdieu e a Educação. M ª Alice Nogueira e Cláudio Martins Nogueira. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
Araújo, Ulisses F. A construção de escolas democráticas: histórias sobre complexidade, mudanças e resistências/ Ulisses F. Araújo – São Paulo: Moderna, 2002 (Educação em pauta).
Camus, Albert, 1913-1960. O homem revoltado/ Albert Camus: tradução de Valerie Rumjanek – 3º ed. – Rio de Janeiro: Record, 1997.
* Eduardo Nunes é Educador em Teatro cursa o último semestre de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal da Bahia e atualmente ensina em um colégio estadual, na periferia de Salvador-BA.
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